Os desafios do professor frente ao multiletramento digital

Os desafios do professor frente ao multiletramento digital
Karina Lisboa | 13/06/2022

Oferecer currículos que promovam o desenvolvimento de habilidades conectadas com a complexidade da nossa sociedade, que estimulem o pensamento crítico e reflexivo dos alunos, é condição si ne quanon para qualquer instituição educacional no século XXI. Ainda assim, essas garantias de nada valem se o corpo docente não estiver inserido em programa de formação continuada, que o permita compreender, aplicar e julgar a transposição didática da teoria para as situações de aprendizagem em sala de aula.

Para melhor conceitualizar os desafios educacionais da sociedade atual, precisamos entender os conceitos de letramento e de multiletramento. Segundo Carvalho (2017), uma das primeiras percursoras do conceito de letramento foi Mary Kato, em 1986, trazendo a ideia de que letramento reflete o que foi compreendido na atividade escolar dos indivíduos, considerando as suas diferenças culturais e sociais no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. Já o conceito de multiletramento ganha destaque ano de 1996, através do Grupo Nova Londres, uma reunião de países que ocorre em Nova Londres nos Estados Unidos, com o objetivo de promover um debate que provocasse as instituições de ensino a inserir em seus currículos as diferentes culturas presentes no mundo globalizado, uma vez que a violência advinda dos conflitos culturais em sala de aula só aumentava.

Como sociedade altamente complexa, plural, hiperconectada, se faz necessário transpor a realidade que nos cerca para o universo escolar, acolhendo a diversidade cultural e social que nos é apresentada, pois os alunos já encontram essa realidade na sala de aula, faltando, contudo, inseri-la nos currículos pedagógicos. E o mais importante: estamos preparando o professor para essa dinâmica, esteja ele inserido em uma escola ou universidade? É necessário adotar novas práticas e ferramentas pedagógicas no cenário do multiletramento?

A escrita pode ser considerada uma tecnologia a partir do momento que nos fazemos valer de um recurso externo (lápis, caneta, computador) para potencializar a linguagem. Essa tecnologia milenar veio se desenvolvendo ao longo dos anos, alargando seu campo de atuação para o que hoje conhecemos por culturas e seus idiomas. É uma das pautas das políticas públicas de qualquer nação nos dias de hoje erradicar o analfabetismo, garantindo que todas as pessoas tenham acesso à leitura e a escrita, um direito básico de qualquer cidadão do mundo.

Ainda assim, encontramos indivíduos analfabetos que conseguem de forma autônoma desenvolver habilidades relacionadas à escrita, como por exemplo, resolver cálculos simples e, portanto, possuem algum grau de letramento. Por si só, contudo, o letramento não é capaz de oferecer recursos a qualquer indivíduo para dar conta da atual complexidade da nossa sociedade hiperconectada, veloz em suas mudanças, em todas as esferas. Portanto, mais do que apenas saber ler e escrever, é preciso saber responder a partir dessa leitura e escrita às demandas que se apresentam. Soma-se a isso a multiplicidade de linguagens encontradas em nossas referências no dia a dia que precisam ser decodificadas, seja através da música, da televisão, do cinema, dos letreiros, para citar alguns. Ou seja, os letramentos (escrita manual e impressa) tornam-se multiletramentos, a partir do momento que o indivíduo precisa analisar criticamente as informações como receptor a partir de novas ferramentas e práticas, uma vez que o multiletramento considera a formação do texto e seu significado por meio do uso de multimídias.

Diante da necessidade de se relacionar com as informações em diferentes mídias, encontra-se uma outra tendência: o professor mediador, e não meramente expositor de conteúdo. A busca pela autonomia do estudante começa com o desenvolvimento de habilidades e atitudes que o coloquem como pensador crítico dos problemas reais que precisará resolver. As tecnologias digitais trouxeram novas possiblidades de aprendizagem, uma vez que o estudante pode ter mais autonomia em suas pesquisas, além da oferta de conteúdos disponíveis em qualquer lugar, a qualquer hora. O professor, então, mais do que nunca tem como desafio mediar as camadas onde a aprendizagem de fato acontece, uma vez que seus alunos estão cada vez mais expostos a uma multiplicidade de informações desencadeadas e, muitas vezes, frágeis em termos de conteúdo. O paradoxal é que ainda existem professores que não permitem o uso de celulares em sala de aula como ferramenta pedagógica.

Os smarthones são acessórios quase imprescindíveis da sociedade do século XXI. Esses dispositivos são muito úteis em termos de processamento de informação, oferecendo suporte aos letramentos digitais, além de estarem presentes em praticamente todas as residências dos jovens.

Para dar conta de apoiar os alunos no uso de diferentes tecnologias em sala de aula o professor precisa de uma formação continuada, de forma que consiga desenvolver novos significados, compreendendo o pensamento crítico e reflexivo como importante habilidade do novo milênio e inserindo o aluno como participante ativo no processo pedagógico. Ao dominar os novos signos presentes no dia a dia dos jovens e adultos estudantes, o professor consegue inserir aplicativos pedagógicos com abordagens baseadas em metodologias ativas para a sala de aula, além de aplicativos que tenham outras finalidades que não pedagógicas, mas que possam ser inseridos como parte da dinâmica de aprendizagem.

Estimular a aprendizagem por meio dos inúmeros gadgets e aparatos tecnológicos é uma realidade sem volta na sala de aula, e as instituições de ensino, sejam escolas ou universidades devem incluir em sua formação docente o desenvolvimento de habilidades que deem condições para o professor mediador envolver e engajar cada vez mais o seu estudante em uma postura ativa e autônoma, como facilitador de um processo contínuo de pesquisa e colaboração entre pares. Para isso, as instituições de ensino devem alinhar seus projetos pedagógicos com essa nova realidade, de forma que o ato pedagógico seja coerente com as demandas da contemporaneidade.

Muito tem se falado sobre o acesso às novas tecnologias pela população de baixa renda em nossa sociedade hiperconectada. Entretanto, uma discussão mais profunda deve ser colocada em pauta: pensar o pluralismo cultural em que vivemos de forma ética e crítica. Dominar as novas ferramentas e tecnologias se faz necessário para acompanhar a velocidade com que surgem diferentes desafios da contemporaneidade, porém mais do que saber manusear é necessário dar sentido aos materiais tecnológicos e, com isso, oferecer aos alunos autonomia para dar conta das demandas reais do mercado que se apresenta de forma crítica e estratégica.

        O papel do professor nesse processo é crucial, uma vez que as TICs, mais do que ferramentas de ensino, devem ser objetos do ensino. Seguindo esse raciocínio, a evolução da sociedade com as novas tecnologias e a pluralidade de culturas requer novas habilidades linguísticas capazes de dar conta de textos cada vez mais multimodais. 

Ultrapassar as barreiras culturais e sociais em meio à um cenário multicultural é um desafio atual para as escolas e universidades que pretendem contribuir no acesso e permanência de jovens e adultos nas salas de aula.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Carvalho, H. D. B. C., Petrus, D. D., M. Santos, Ferreira, G. Q., Luz, L. F. (2017). A importância do professor multiletrado e sua contribuição no processo ensino/aprendizagem. Disponível em: https://bit.ly/33RcCkP , [Acessado em 04 de dezembro de 2020].

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Gaydeczka, B., Karwoski, A. M. (2015). Pedagogia dos multiletramentos e desafios para uso das novas tecnologias digitais em sala de aula no ensino de língua portuguesa. Linguagem & Ensino [Online], v.18. Disponível em: https://bit.ly/376CmM9, [Acessado em 02 de dezembro de 2020].

Google for Education. 2018. Future of the classroom. [e-book] Disponível em: https://edu.google.com/latest-news/future-of-the-classroom/?modal_active=none, [Acessado em 01 de dezembro de 2020].

Neto, O. C. (1994). O trabalho de campo com descoberta e criação. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes.

Oliveira, S. L (2002). Tratado de Metodologia Científica: Projetos de Pesquisa, TGI, TCC, Monografias, Dissertações e Teses. São Paulo: Pioneira Thompson Learning.

Rodrigues, C. R. (2016). Por uma pedagogia a serviço dos multiletramentos. Disponível em: http://ueadsl.textolivre.pro.br/2016.2/papers/upload/105.pdf, [Acessado em 02 de dezembro de 2020].

Xavier, H. S. M. (2019). Práticas de multiletramentos e formação docente: aplicativos pedagógicos na potencialização da leitura e da produção textual. Disponível em: https://bit.ly/2KcMxG3 , [Acessado em 04 de dezembro de 2020].

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